Durante esta semana, do dia 11 ao dia 15, traremos nesta seção trechos da pregação do cardeal Raniero Cantalamessa, realizada na Basílica de São Pedro/Roma, na quaresma de 2006.
O dever de amar
Há um outro ensinamento que nos vem do amor de Deus manifestado na cruz de Cristo. O amor de Deus pelo homem é fiel eternamente: “Eu te amei com amor eterno”, diz Deus ao homem nos profetas (Jr 31, 3), e ainda: “Em minha lealdade não falharei” (Sl 89,34). Deus uniu-se para amar para sempre, privou-se da liberdade de voltar atrás. É este o sentido profundo da aliança que em Cristo tornou-se «nova e eterna”.
Na encíclica papal, lemos: “Faz parte da evolução do amor para níveis mais altos, para suas íntimas purificações, que ele procure agora o caráter definitivo, e isso em um duplo sentido: no sentido da exclusividade – “apenas esta única pessoa” – e no sentido de ser “para sempre”. A amor compreende a totalidade da existência em toda a sua dimensão, inclusive a temporal. Nem poderia ser de outro modo, porque sua promessa visa o definitivo: o amor visa a eternidade”.
Em nossa sociedade, questiona-se cada vez com maior freqüência que relação pode haver entre o amor de dois jovens e a lei do matrimônio; que necessidade de «vincular-se» tem o amor, que é todo impulso e espontaneidade. Assim são sempre mais numerosos aqueles que rejeitam a instituição do matrimônio e escolhem o assim chamado amor livre ou a simples convivência de fato. Só se se descobre a profunda e vital relação que há entre lei e amor, entre decisão e instituição, pode-se responder concretamente àquela pergunta e dar aos jovens um motivo convincente para «unir-se» e amar para sempre e não ter medo de fazer do amor um “dever”.
“Portanto, quando há o dever de amar, –escreveu o filósofo que, depois de Platão, escreveu as coisas mais belas sobre o amor, Kierkegaard–, agora somente o amor é garantido para sempre contra toda alteração; eternamente livre em santa independência; assegurado em eterna santidade contra todo desespero”. O sentido destas palavras é que a pessoa que ama, quanto mais ama intensamente, mais percebe com angústia o perigo que corre seu amor. Perigo que não vem dos outros, mas dela mesma. Essa sabe bem, de fato, ser volúvel e que amanhã, querendo ou não, pode já estancar-se e não amar mais ou mudar o objeto de seu amor. É já que, agora que está nela a luz do amor, vê com clareza qual perda irreparável isto comporta, eis que se previne «unindo-se» para amar com o vinculo do dever e ancorando, deste modo, à eternidade seu ato de amor posto no tempo.
Ulisses queria chegar a rever sua pátria e sua esposa, mas devia passar através do local das sereias que os navegantes encontravam com seu canto e os levavam a bater contra os recifes. É um mito, mas ajuda a entender o porquê, ainda que humano e existencial, do matrimônio «indissolúvel» e, sobre um plano diverso, dos votos religiosos.
O dever de amar protege o amor do «desespero» e o torna «santo e independente», no sentido que protege do desespero de não poder amar para sempre. Dai-me um verdadeiro apaixonado –dizia o mesmo pensador– e ele vos dirá se, em amor, há oposição entre prazer e dever; se o pensamento de «dever» amar por toda a vida traz ao amante medo e angústia, ou não muito mais alegria e felicidade total.
Aparecendo um dia da Semana Santa à Beata Ângela da Foligno, Cristo lhe disse uma palavra que ficou célebre: “Não te amei por brincadeira!”. Cristo não nos amou verdadeiramente por brincadeira. Há uma dimensão lúdica e jocosa no amor, mas ele mesmo não é um jogo; é a coisa mais séria e mais cheia de conseqüências que existe no mundo; a vida humana depende dele. Ésquilo compara o amor a um leãozinho que se cria em casa, «antes dócil e terno mais que uma criança», com o qual se pode até brincar, mas que, crescendo, é capaz de fazer estrago e encher a casa de sangue.
Estas consideração não bastarão para mudar a cultura existente que exalta a liberdade de mudar e a espontaneidade do momento, a prática do «usar e jogar fora» aplicada também ao amor. (Encarregar-se-á, lamentavelmente, a vida de fazê-lo, quando ao fim se encontrar com as cinzas nas mãos e a tristeza de não ter construído nada de duradouro com o próprio amor). Mas que, pelo menos sirvam, estas considerações, para confirmar a bondade e a beleza da própria escolha àqueles que decidiram viver o amor entre o homem e a mulher segundo o projeto de Deus, e sirvam para animar muitos jovens a fazer a mesma escolha.
Não nos resta outra coisa senão entoar com Paulo o hino ao amor vitorioso de Deus. Ele nos convida a fazer com ele uma maravilhosa experiência de cura interior. Pensa em todas as coisas negativas e nos momentos críticos de sua vida: a tribulação, a angústia, a perseguição, a fome, a nudez, o perigo, a espada. Contempla isso tudo à luz da certeza do amor de Deus e grita: «Mas em tudo isso somos mais que vencedores, graças àquele que nos amou!».
Levanta então o olhar; desde sua vida pessoal passa a considerar o mundo que o circunda e o destino humano universal, e de novo a mesma jubilosa certeza: “Pois estou convencido de que nem a morte nem a vida…, nem o presente nem o futuro, nem as potestades, nem altura, nem a profundeza, nem qualquer outra criatura poderá nos separar do amor de Deus manifestado em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 8, 37-39).
Recolhamos seu convite nesta Sexta-Feira da Paixão, e repitamos entre nós suas palavras enquanto dentro em pouco adoremos a cruz de Cristo.
Cardeal Raniero Cantalamessa
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