Em certo momento da pregação apostólica depois da Páscoa, vemos o tema da vigilância assumir um aspecto novo e dramático, bem como indicador de um estado ou atitude habitual, tornar-se indicador de um ano. No lugar do imperativo: “Vigiai!”, coloca-se o imperativo: “Despertai!”. Despertar significa passar de um estado para outro. É um ato que cria uma diferença, indica mudança, crise; com uma palavra mais tradicional: conversão. Basta pensar na diferença existente entre um instante antes e um instante depois que alguém despertou de um sono profundo, para ter claro na mente o que essa palavra significa no plano espiritual.
Logo ouvimos um desses gritos de despertamento. Lê-se na Epístola de São Paulo aos Romanos: “É o que fareis, conscientes do momento (kairòs). Tanto mais que sabeis em que tempo estamos: eis a hora de sairdes do vosso sono; hoje, com efeito, a salvação está mais próxima de nós do que no momento em que abraçamos a fé. A noite vai adiantada, o dia está bem próximo. Rejeitemos, pois, as obras das trevas e revistamos as armas da luz. Comportemos-nos honestamente, como em pleno dia, sem comezainas nem bebedeiras, sem licenciosidades nem devassidões, sem brigas e nem invejas. Mas revesti-vos do Senhor Jesus cristo, e não vos abandoneis às preocupações da carne para lhe satisfazerdes as concupiscências” (Rm 13,10-14).
Este enérgico e brusco chamamento deixa entrever uma triste realidade, de fato. A vida dos cristãos está constantemente exposta ao redemoinho do mundo e da maneira de viver pagã. No início de sua parênese em Rm 12,2, São Paulo havia recomendado: “Não durmamos como os outros” (1Ts 5,6). Agora ele especifica no que consiste este conformismo com o mundo e com este sono. Consiste em satisfazer as paixões e os desejos desordenados e egoísticos do homem velho, os excessos de todo tipo: na comida, na bebida, na vida afetiva e sexual, no falar, nas relações com o próximo. Na natureza existe um inseto, a mosca Tze-Tze, famosa por seu terrível poder de atirar o pobre coitado que ela ataca em um sono mortal. No plano espiritual, somente o mundo, com as suas concupiscências, detém um poder tão nefasto a ponto de atirar no sono. Da mesma forma como gritaríamos vigorosamente “Acorda!” a um ente querido que estivesse prestes a ser mordido por um destes insetos ou por uma serpente, assim também os apóstolos gritavam “Despertai!” aos cristãos que estavam prestes a ser reabsorvidos pelo mundo.
Raniero Cantalamessa
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